O discurso competente

A ideologia é um corpo sistemático de representações e de normas que nos ensinam a conhecer e a agir. O discurso ideológico é aquele que pretende coincidir as coisas; anular a diferença entre o pensar, o dizer e o ser e engendrar uma lógica que unifique pensamento, linguagem e realidade para identificar os sujeitos sociais com uma imagem particular universalizada, isto é, a imagem da classe dominante.

Universalizando o particular pelo apagamento de diferenças e contradições, a ideologia ganha coerência e força porque é um discurso lacunar que não pode ser preenchido. Em outras palavras, a coerência ideológica não é obtida malgrado as lacunas, mas, pelo contrário, graças a elas.

Sabemos, também, que na ideologia as idéias sempre estão fora do lugar, uma vez que são tomadas como determinantes do processo histórico, quando, na verdade, são determinadas por ele.

O saber é um trabalho. O trabalho para elevar à  dimensão do conceito uma situação de não-saber, isto é, a experiência imediata cuja obscuridade pede clarificação. A obscuridade de uma experiência nada mais é senão seu caráter necessariamente indeterminado e o saber nada mais é senão o trabalho para determinar essa indeterminação, ou seja, para torná-la inteligível.

Só há saber quando a reflexão aceita o risco da indeterminação que lhe deu origem, quando aceita o risco de não contar com garantias prévias e exteriores à própria experiência e à própria reflexão que a trabalha.

Ora, a ideologia, para ser eficaz, precisa recusar o não-saber que habita a experiência ter a habilidade para assegurar uma posição graças à qual possa neutralizar a história, abolir as diferenças, ocultar as contradições e desarmar toda tentativa de interrogação. A ideologia teme tudo que possa ser instituinte ou fundador e só pode incorporá-los quando perderam a força inaugural e se tornaram algo já instituído.

Por essa via, a diferença entre ideologia e saber é que, neste as idéias são produto de um trabalho, enquantro naquela as idéias assumem a forma de conhecimentos, ou seja, de idéias instituídas.

O saber galilaico,por exemplo, tornou-se aceitável e passível de incorporação quando já foram acionados dispositivos econômicos, sociais e políticos que permitiram acolher o saber novo, não porque fosse inovador ou mesmo verdadeiro.

Tornou-se aceitável porque perdeu a força instituinte, já se transformou de saber sobre a natureza em conhecimentos de Física, já foi neutralizado e pode servir para justificar a suposta neutralidade racional de uma certa forma de dominação.

O caso de Freud é semelhante. Ele disse que, com a psicanálise, havia trazido a peste à humanidade. Como explicar, então, que esse flagelo tenha podido se converter em terapia de ajustamento, se aquilo a que essa terapia quer nos ajustar é justamento o que gera a neurose?

Os casos Galileu e Freud nos ensinam algo que podemos designar com a expressão discurso competente. O discurso competente é aquele que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro ou autorizado, porque perdeu os laços com o lugar e o tempo de sua origem.

Assim, não é paradoxal nem contraditório, em um mundo como o nosso, que cultua patologicamente a cientificidade, surgirem interdições ao discurso científico.

Podemos dizer que, exatamente porque a ideologia contemporânea é cientificista, cabe-lhe o papel de reprimir o pensamento e o discurso científico. É nesse contexto de hipervalorização do conhecimento dito científico e de simultânea repressão ao trabalho científico que podemos melhor apanhar o significado do que designamos como discurso competente.

O discurso competente é o discurso instituído. É aquele no qual a linguagem sofre uma restrição assim resumível: não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa, em qualquer lugar ou qualquer circunstância.

O discurso competente se confunde, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir.

Um discurso onde os lugares e as circunstâncias já foram predeterminados para que seja permitido falar e ouvir. E, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizadas segundo os cânones da esfera de sua própria competência.

O processo de burocratização de todas as esferas da vida social, econômica, política e cultural se realiza sob uma idéia mestra, que é idéia de Organização, entendida como uma racionalidade imanente ao social, que se manifesta sempre da mesma maneira, sob formas variadas, desde a esfera da produção material até a da produção cultural. A burocratização e a organização pressupõem as seguintes determinações:

a) a crença na realidade em si e para si da sociedade, de tal modo que a racionalidade dos meios de ação inutiliza automaticamente qualquer questão acerca da racionalidade dos fins da ação.

b) existência de um sistema de autoridade fundado na hierarquia, de tal modo que subir um degrau da escala corresponde à conquista de um novo status, uma nova responsabilidade e um novo poder, que não dependem daquele que ocupa o posto, mas que pertence ao próprio degrau hierárquico.

Ou seja, a reificação da responsabilidade e do poder alcança o grau máximo, na medida em que é o cargo, e não seu ocupante, que possui qualidades determinadas.

c) como conseqüência, há o surgimento de um processo de identificação dos membros da burocracia com a função que exercem e o cargo que ocupam,  expressa por um cerimonial prefixado que garante o reconhecimento recíproco dos membros na qualidade de superiores e subalternos, bem como o reconhecimento da competência específica de cada um segundo o posto que ocupa.

d) a direção não transcende a burocracia ou a organização, mas faz parte dela, sob a forma de administração, Isto é, a dominação tende a permanecer oculta ou dissimulada graças à crença em uma ratio administrativa ou administradora, de tal modo que dirigentes e dirigidos parecem comandados apena\s pelos imperativos internos da organização.

Em uma palavra, a impressão é de que ninguém exerce o poder, porque ele emana da racionalidade imanente do mundo organizado. Ou, se preferirmos, da competência dos cargos e funções que, por acaso, estão ocupados por homens determinados.

Com o fenômeno da burocratização e da organização, a ideologia deixou de ser um discurso legislador, ético e pedagógico fundado na transcendência das idéias e dos valores para se converter num discurso anônimo e impessoal, fundado na pura racionalidade dos fatos.

Deixou de ser proferido do alto para se fundar no racional do mundo e se proferir ocultando o lugar de onde é pronunciado. Tornou-se o discurso neutro da cientificidade ou do conhecimento.

A idéia de Organização serve para cimentar a crença na existência de estruturas que existem em si e funcionam em si, sob a direção de uma racionalidade que lhes é própria e independente da vontade e da intervenção humanas. No interior da Organização, os homens já encontram pré-traçadas as formas de ação e de cooperação racionais, ou seja, que lhes será permitido terem.

E cada sujeito imagina conhecer a si mesmo pela mediação do conhecimento que a Organização julga possuir a respeito dele. O discurso competente, enquanto discurso do conhecimento, é o discurso do especialista, proferido de um ponto determinado da hierarquia da Organização. Haverá tantos discursos competentes quantos lugares hierárquicos autorizados a falar e a transmitir ordens aos degraus iguais e inferiores da hierarquia.

É um discurso que não se inspira em idéias e valores, mas numa suposta realidade dos fatos e numa suposta eficácia dos meios de ação. Também é um discurso instituído, não um saber instituinte e, como tal, tem o papel de dissimular, sob a cientificidade, a existência real da dominação.

A condição para o prestígio e para a eficácia do discurso de competência como discurso do conhecimento depende da afirmação tácita e da aceitação tácita, da incompetência dos homens enquanto sujeitos sociais e políticos. Para que esse discurso possa ser proferido e mantido, é imprescindível que não haja sujeitos, mas apenas homens reduzidos à condição de objetos sociais.

Ora, exatamente quando isso acontece entra em cena a outra modalidade do discurso competente, para ocultar a verdade de sua primeira face. Ou seja, o discurso do conhecimento entra em cena para tentar devolver aos objetos sociais, econômicos e políticos a qualidade de sujeitos que lhes foi roubada e essa tentativa se realiza através da competência privatizada, ou seja, através de uma competência que lhe sdiz respeito enquanto sujeitos individuais ou pessoas privadas.

Ora, essa devolução é um logro, na medida em que é apenas a transferência, para o plano individual e privado, do discurso competente do conhecimento cujas regras já estão dadas pelo mundo da burocracia e da organização.

Ou seja, a competência privada está submetida à mesma reificação que preside a competência do discurso do conhecimento. Uma das maneiras mais eficazes de criar nos objetos sócio-econômicos e sócio-políticos a crença de que são sujeitos consiste em elaborar uma série de discursos derivados, por cujo intermédio é outorgada competência aos interlocutores que puderam assimilá-la.

Esses discursos são os que ensinam a cada um como se relacionar com o mundo e com os demais homens. Assim, o homem passa a se relacionar com seu trabalho mediado pelo discurso da tecnologia, a se relacionar com o desejo pelo discurso da sexologia, com a alimentação pelo discurso dietético, com a criança pelo discurso pedagógico, com a natureza pelo discurso ecológico, com os demais homens pelos discursos da sociologia e da psicologia.

Em uma palavra, o homem passa a se relacionar com a vida, o corpo, a natureza e os demais homens através de mil pequenos modelos científicos dos quais está ausente a dimensão propriamente humana da experiência.

E, no lugar dessa experiência, surgem milhares de artifícios mediadores e promotores de conhecimento que constrangem os homens a se submeterem à linguagem do especialista, que detém os segredos da realidade vivida e que, indulgentemente, permite ao não-especialista a ilusão de participar do saber.

Esse discurso competente não exige uma submissão qualquer, mas algo profundo e sinistro: exige a interiorização de suas regras, pois aquele que não as interiorizar corre o risco de se ver como incompetente, anormal, a-social; como detrito humano.

A invasão dos mercados letrados por uma avalanche de discursos de popularização do conhecimento não é signo de uma cultura que perdeu o rumo, mas apenas um procedimento ideológico pelo qual a ilusão coletiva de conhecer confirma o poderio daqueles a quem a burocracia e a organização determinaram previamente como autorizados a saber.

A ciência da competência se tornou benvinda, pois o saber é perigoso apenas quando é instituinte, negador e histórico. O conhecimento, isto é, a competência instituída e institucional, não é um risco, pois é arma para um fantástico projeto de dominação e de intimidação social e política.

Marilena Chauí em seu livro “Cultura e Democracia”.

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